O sistema educacional brasileiro foi e sempre será, certamente um caso à parte. Muitos dos que trabalham nessa área, em particular os professores já tiveram seu valor. Isso é de largo reconhecimento pela sociedade, digo dos brasileiros de idade mais avançada, porque já faz mesmo muito tempo que essa profissão era sinônimo de orgulho, e status social.
Atualmente, qualquer um que se refere a esse tema, quando motivado por uma pesquisa, mesmo que seja de forma rasa, logo se refere a questões como baixa qualidade, falta de equidade, crescimento da violência nas escolas, necessidade de avanços na inclusão de crianças fora da sala de aula, assim como a tão falada meta de universalização educacional tratada nos Planos Educacionais Brasil afora que nunca são alcançadas.
O lamento, que mais parece uma súplica é generalizada no país pedindo as melhorias tão necessárias para o salto de qualidade no ensino, que tanto se fala. Que é preciso investir nesse setor para melhorar esse segmento, todos sabem, discutem e falam fervorosamente, porém até então, são apenas discursos que não chegam a lugar nenhum. Passam-se os anos e nada se faz.
O que dizer, ou como argumentar por exemplo, quando as estatísticas apontam que a educação no Brasil apresenta um cenário de contrastes ao afirmar que o país celebrou a menor taxa de analfabetismo da história (5,3%) no ano de 2024, quando por outro lado descumpriu quase 90% das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) cujo decênio encerrou naquele mesmo ano? Será diferente agora e nos anos seguintes?
Como se não bastasse a mesmice que há anos impera no sistema educacional desse país, o setor continua inerte. Não se percebe, ao menos de forma acanhada, qualquer movimento de protagonismo e altivez, por parte daqueles que atuam como gestores do setor. Não é perceptível algum vislumbre de mudanças que acompanhe as tantas inovações advindas nesse novo século. Pelo contrário, a ideologia de quem está no é imperativa, e cala qualquer um que tente levantar a voz.
Essa falta de sensibilidade por parte destes que se dizem serem grandes administradores e especialista, investidos no alto escalão dos governos para conduzir os sistemas educacionais Brasil afora, arrasta cada vez mais a educação brasileira para o buraco, diga se de passagem um buraco crescente e cada dia mais em fundo, apesar de o sistema ter muitos fundos.
Quando se pensa que deu um passo á frente criando um piso salarial nacional para os professores, dois passos ou mais são dados para trás. Primeiro, porque o piso salarial já vem defasado em relação a perda do poder de compra, a inflação da economia, bem como em relação aos salários das demais categorias de trabalhadores. Segundo, pelo fato de que os recursos repassados à educação, como sempre não refletem nas entregas que são necessárias no cotidiano pedagógico das escolas, que continuam com o seus quadros de pessoal e alunos desmotivados.
Afinal, o que está acontecendo com a sociedade que não valoriza mais a educação, algo tão importante, com já fez no passado? Como ter esperança e poder sonhar com um mundo melhor, se as nossas crianças e jovens não estão sendo preparadas para pensar e agir de forma equilibrada no meio onde vivem, respeitando os seus semelhantes e vivendo em harmonia na sociedade?
Pensando a partir de Milton Santos, Geógrafo renomado, conhecido mundialmente por sua geografia critica que transformou o modo de como pensar o mundo globalizado, e que se refere ao espaço como um conjunto indissociável de objeto e ações, podemos concluir que a educação também é um conjunto indissociável de conhecimentos e ações que precisa evoluir no tempo e no espaço que se encontra como forma de alimento na forma de conhecimento para que as pessoas possam ter uma vida boa, co0mo bem já dizia Sócrates, filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga.
No entanto, a diferença é que essas ações precisam ser bem planejadas, para a devida intervenção neste mesmo espaço onde todas os seres são atores e não se dão conta da sua importância e do seu papel, e principalmente no poder de transformação que cada um carrega consigo. Isso poderia moldar sua própria realidade, influenciar o ambiente ao redor e ressignificar histórias.
O também reconhecido educador Paulo Freire é enfático ao questionar sobre o papel de transformação do espaço pelo ser humano quando sensibiliza as pessoas para o protagonismo da sua própria história, dizendo ser necessário que cada pessoa se veja neste mundo como sujeito e não como objeto, e lute para conquistar o seu próprio espaço.
Isso significa deixar de ser um mero espectador ou alguém moldado pelas circunstâncias para se tornar o protagonista da própria história. É ter consciência crítica e capacidade de intervir na realidade. Também refere-se a conquista da dignidade, da voz e do lugar na sociedade e na história. Isso envolve autoconhecimento, ação e, muitas vezes, a superação de barreiras impostas, reconhecendo que a presença no mundo não deve ser de adaptação passiva, mas de inserção ativa, transformando o meio e a si mesmo.
É intrigante o momento que vivenciamos no setor educacional brasileiro, quando, por exemplo, um profissional que estudou, se especializou lato e estrito senso e entra para trabalhar na educação percebendo salários irrisórios, menos até que muitos outros profissionais de categorias que exigem para o ingresso no mercado de trabalho, de apenas o ensino básico.
Não me refiro a isso em tom de maldade ou discriminatório a qualquer outro profissional, pois todos, como dito antes, precisam procurar e ocupar os espaços no tamanho das suas capacidades, apenas enfatizo a ideia como forma de comparação e para mostrar o descaso com quem é capaz de ensinar todas as profissões, o professor.
Não deveria ser o professor bem remunerado, já que é o principal agente de transformação social, aquele que vai além de transmitir conteúdo, atuando como facilitador do aprendizado, inspirador, orientador e formador de cidadãos críticos e éticos, dedicando-se ao desenvolvimento integral de indivíduos e à construção de um futuro mais justo? Aquele que leva a todos o conhecimento, ferramenta mais eficaz para conquistar espaços?
Atualmente, situação crítica vivenciada, faz com que o governo federal veicule na mídia, marketing do tipo como concessão de bolsas para quem venha acursar uma licenciatura, carteira de professor, cursos gratuitos em plataformas governamentais. Tudo é, sem dúvida, mais uma tentativa frustrada para sensibilizar os jovens a aderirem a carreira do magistério. Não deixa de ser também, mais um desperdício de dinheiro.
A grande pergunta é: será que ninguém mais quer ser professor nesse país? Será também que os melhores profissionais estão deixando o magistério e se encaminhando para outros ramos de trabalhos, tudo por falta de reconhecimento e valorização? Até os alunos não querem mais ir à escola. O governo agora tem que pagar para o aluno estudar. Esse tal pé de meia demonstra a situação degradante que o país se encontra no setor educacional. Obter conhecimento não deveria ser uma busca incessante de cada pessoa.
Que é difícil a gestão da educação no Brasil, isso, sem dúvida é um fato. No entanto, o que se vê a todo o momento é o uso das secretarias de educação, quer sejam estaduais ou municipais, apenas como setores para acomodação de cargos políticos. Não que todas as pessoas colocadas no serviço publico pelos meios políticos sejam desqualificadas. São práticas antigas no estado brasileiro que se perpetua até hoje e não há perspectivas de mudanças, haja vista a ignorância política do povo, que tudo aceita.
O fato é que as especificidades do setor requer muita prática para saber lidar com as mais diferentes problemáticas encontradas. Dessa forma, a educação no Brasil é um verdadeiro recomeçar de ações sem meio e sem fim. Ações que não convence mais a sociedade, que por sua vez, atônita vislumbra algum horizonte de melhorias em um sistema que tem como premissa melhorar a vida dos seres humanos e proporcionar meios de oportunidades iguais para todos através do conhecimento.
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