quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A história de uma educação sem educação


O sistema educacional brasileiro foi e sempre será, certamente um caso à parte. Muitos dos que trabalham nessa área, em particular os professores já tiveram seu valor. Isso é de largo reconhecimento pela sociedade, digo dos brasileiros de idade mais avançada, porque já faz mesmo muito tempo que essa profissão era sinônimo de orgulho, e status social.

Atualmente, qualquer um que se refere a esse tema, quando motivado por uma pesquisa, mesmo que seja de forma rasa, logo se refere a questões como baixa qualidade, falta de equidade, crescimento da violência nas escolas, necessidade de avanços na inclusão de crianças fora da sala de aula, assim como a tão falada meta de universalização educacional tratada nos Planos Educacionais Brasil afora que nunca são alcançadas.

O lamento, que mais parece uma súplica é generalizada no país pedindo as melhorias tão necessárias para o salto de qualidade no ensino, que tanto se fala. Que é preciso investir nesse setor para melhorar esse segmento, todos sabem, discutem e falam fervorosamente, porém até então, são apenas discursos que não chegam a lugar nenhum. Passam-se os anos e nada se faz.

O que dizer, ou como argumentar por exemplo, quando as estatísticas apontam que a educação no Brasil apresenta um cenário de contrastes ao afirmar que o país celebrou a menor taxa de analfabetismo da história (5,3%) no ano de 2024, quando por outro lado descumpriu quase 90% das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) cujo decênio  encerrou naquele mesmo ano? Será diferente agora e nos anos seguintes?

Como se não bastasse a mesmice que há anos impera no sistema educacional desse país, o setor continua inerte. Não se percebe, ao menos de forma acanhada, qualquer movimento de protagonismo e altivez, por parte daqueles que atuam como gestores do setor. Não é perceptível algum vislumbre de mudanças que acompanhe as tantas inovações advindas nesse novo século. Pelo contrário, a ideologia de quem está no é imperativa, e cala qualquer um que tente levantar a voz.

Essa falta de sensibilidade por parte destes que se dizem serem grandes administradores e especialista, investidos no alto escalão dos governos para conduzir os sistemas educacionais Brasil afora, arrasta cada vez mais a educação brasileira para o buraco, diga se de passagem um buraco crescente e cada dia mais em fundo, apesar de o sistema ter muitos fundos.

Quando se pensa que deu um passo á frente criando um piso salarial nacional para os professores, dois passos ou mais são dados para trás. Primeiro, porque o piso salarial já vem defasado em relação a perda do poder de compra, a inflação da economia, bem como em relação aos salários das demais categorias de trabalhadores. Segundo, pelo fato de que os recursos repassados à educação, como sempre não refletem nas entregas que são necessárias no cotidiano pedagógico das escolas, que continuam com o seus quadros de pessoal e alunos desmotivados.

Afinal, o que está acontecendo com a sociedade que não valoriza mais a educação, algo tão importante, com já fez no passado? Como ter esperança e poder sonhar com um mundo melhor, se as nossas crianças e jovens não estão sendo preparadas para pensar e agir de forma equilibrada no meio onde vivem, respeitando os seus semelhantes e vivendo em harmonia na sociedade?

Pensando a partir de Milton Santos, Geógrafo renomado, conhecido mundialmente por sua geografia critica que transformou o modo de como pensar o mundo globalizado, e que se refere ao espaço como um conjunto indissociável de objeto e ações, podemos concluir que a educação também é um conjunto indissociável de conhecimentos e ações que precisa evoluir no tempo e no espaço que se encontra como forma de alimento na forma de conhecimento para que as pessoas possam ter uma vida boa, co0mo bem já dizia Sócrates,  filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga.

No entanto, a diferença é que essas ações precisam ser bem planejadas, para a devida intervenção neste mesmo espaço onde todas os seres são atores e não se dão conta da sua importância e do seu papel, e principalmente no poder de transformação que cada um carrega consigo. Isso poderia moldar sua própria realidade, influenciar o ambiente ao redor e ressignificar histórias.

O também reconhecido educador Paulo Freire é enfático ao questionar sobre o papel de transformação do espaço pelo ser humano quando sensibiliza as pessoas para o protagonismo da sua própria história, dizendo ser necessário que cada pessoa se veja neste mundo como sujeito e não como objeto, e lute para conquistar o seu próprio espaço.

Isso significa deixar de ser um mero espectador ou alguém moldado pelas circunstâncias para se tornar o protagonista da própria história. É ter consciência crítica e capacidade de intervir na realidade. Também refere-se a conquista da dignidade, da voz e do lugar na sociedade e na história. Isso envolve autoconhecimento, ação e, muitas vezes, a superação de barreiras impostas, reconhecendo que a presença no mundo não deve ser de adaptação passiva, mas de inserção ativa, transformando o meio e a si mesmo.

É intrigante o momento que vivenciamos no setor educacional brasileiro, quando, por exemplo, um profissional que estudou, se especializou lato e estrito senso e entra para trabalhar na educação percebendo salários irrisórios, menos até que muitos outros profissionais de categorias que exigem para o ingresso no mercado de trabalho, de apenas o ensino básico.

Não me refiro a isso em tom de maldade ou discriminatório a qualquer outro profissional, pois todos, como dito antes, precisam procurar e ocupar os espaços no tamanho das suas capacidades, apenas enfatizo a ideia como forma de comparação e para mostrar o descaso com quem é capaz de ensinar todas as profissões, o professor.

Não deveria ser o professor bem remunerado, já que é o principal agente de transformação social, aquele que vai além de transmitir conteúdo, atuando como facilitador do aprendizado, inspirador, orientador e formador de cidadãos críticos e éticos, dedicando-se ao desenvolvimento integral de indivíduos e à construção de um futuro mais justo? Aquele que leva  a todos o conhecimento, ferramenta mais eficaz para conquistar espaços?

Atualmente,  situação crítica vivenciada, faz com que o governo federal veicule na mídia, marketing do tipo como concessão de bolsas para quem venha acursar uma licenciatura, carteira de professor, cursos gratuitos em plataformas governamentais. Tudo é, sem dúvida, mais uma tentativa frustrada para sensibilizar os jovens a aderirem a carreira do magistério. Não deixa de ser também, mais um desperdício de dinheiro.

A grande pergunta é: será que ninguém mais quer ser professor nesse país? Será também que os melhores profissionais estão deixando o magistério e se encaminhando para outros ramos de trabalhos, tudo por falta de reconhecimento e valorização? Até os alunos não querem mais ir à escola. O governo agora tem que pagar para o aluno estudar. Esse tal pé de meia demonstra a situação degradante que o país se encontra no setor educacional. Obter conhecimento não deveria ser uma busca incessante de cada pessoa.

Que é difícil a gestão da educação no Brasil, isso, sem dúvida é um fato. No entanto, o que se vê a todo o momento é o uso das secretarias de educação, quer sejam estaduais ou municipais, apenas como setores para acomodação de cargos políticos. Não que todas as pessoas colocadas no serviço publico pelos meios políticos sejam desqualificadas. São práticas antigas no estado brasileiro que se perpetua até hoje e não há perspectivas de mudanças, haja vista a ignorância política do povo, que tudo aceita.

O fato é que as especificidades do setor requer muita prática para saber lidar com as mais diferentes problemáticas encontradas. Dessa forma, a educação no Brasil é um verdadeiro recomeçar de ações sem meio e sem fim. Ações que não convence mais a sociedade, que por sua vez, atônita vislumbra algum horizonte de melhorias em um sistema que tem como premissa melhorar a vida dos seres humanos e proporcionar meios de oportunidades iguais para todos através do conhecimento.


O impacto das novas tecnologias na Educação Infantil

O impacto das tecnologias digitais no desenvolvimento infantil é amplamente explorado nas teorias de Jean Piaget e Lev Vygotsky. Piaget (1976) propôs que as crianças constroem conhecimento por meio de interações físicas e sociais, enquanto Vygotsky (1984) enfatiza o papel fundamental da mediação social no desenvolvimento cognitivo.

A Teoria do Desenvolvimento Cognitivo de Piaget categoriza o desenvolvimento em quatro estágios: sensório-motor, pré-operacional, operacional concreto e operacional formal. Cada estágio representa uma fase distinta no desenvolvimento das habilidades cognitivas e da compreensão do mundo pelas crianças (Piaget, 1976).

Vygotsky, por sua vez, enfatiza que o desenvolvimento cognitivo é profundamente influenciado pelo contexto sociocultural e pelas interações sociais. O conceito de “Zona de Desenvolvimento Proximal” refere-se à diferença entre o que uma criança pode realizar de forma autônoma e o que consegue fazer com o auxílio de outros (Vygotsky, 1984).

Aplicativos educativos e plataformas digitais podem atuar como ferramentas mediadoras dentro dessa zona, potencializando o desenvolvimento cognitivo quando utilizados com orientação adequada (Radesky et al., 2015). A Teoria do Aprendizado Multimodal (Mayer, 2001) contribui para essa discussão, ao sugerir que a exposição a múltiplas modalidades de informação pode potencializar o aprendizado, desde que haja a mediação adequada.

Kenski (2012), procura definir as tecnologias por meio da relação existente com técnicas e equipamentos ou por meio das novas tecnologias, levando em conta o conceito de inovação.

Martins e Rocha (2010) destacam que a aprendizagem da criança começa muito antes da aprendizagem escolar, já que possui uma bagagem histórica. Para ele, as crianças aprendem muito antes de chegar ao convívio escolar, à chegada da criança na escola introduz elementos novos no seu desenvolvimento, por meio de um mediador, que conduzirá o processo de desenvolvimento individual e histórico-social.

Para Gadotti (2000, p.38), a escola precisa ser o centro de inovações e tem como papel fundamental “[...] orientar, criticamente, especialmente as crianças e jovens na busca de uma informação que os faça crescer e não embrutecer”. Para o autor, é necessário iniciar a educação tecnológica desde a mais tenra idade, ou seja, a partir da Educação Infantil e a escola precisa oferecer uma formação em que todos interajam, para haver interesse e uma boa formação efetivando a educação de qualidade.

A Base Nacional Curricular Comum – BNCC (2018) reconhece que as tecnologias digitais são ferramentas poderosas que podem enriquecer o processo educativo na Educação Infantil, desde que utilizadas de forma consciente e planejada, respeitando as características e necessidades das crianças nessa faixa etária.

Dessa forma, traz em seus textos diversos referências e orientações para a implementação de Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação: Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (BRASIL, 2018, p. 09).

Neste sentido, considerando que essas ferramentas como material didático escolar está garantido em legislação específica e respeitando os alunos da educação infantil como sujeitos históricos e cidadãos de direitos esta é uma ação que possibilitará a formação de indivíduos mais criativos e que adquirirão novos conhecimentos integrando-se com um novo modo de aprender e interagir com a sociedade (PEREIRA; LOPES, 2005, p. 02).

Nessa perspectiva é relevante que os educadores explorem esses dispositivos na sala de aula como forma de possibilitar a assimilação de novos conceitos e o desenvolvimento de habilidades sociais e colaborativas desde a infância, competências que serão fundamentais para o futuro educacional e profissional dos das crianças.

Assim, nesse momento em que o mundo está cada vez mais envolvido em uma cultura digital, que também é móvel e conectada (SILVA, 2017), não faria sentido a educação e seus processos de ensino e aprendizagens ficarem alheados a esse mundo e contexto.