sexta-feira, 28 de novembro de 2025

A realidade do mundo atual e a teoria do condicionamento ambiental

A realidade do mundo no qual vivemos na atualidade é marcada por uma complexidade multifacetada, que escancara crises globais, como as  geopolíticas e sanitárias, e mudanças tecnológicas em uma velocidade assustadora, que alteraram profundamente o trabalho e suas relações, e mais profundamente as interações sociais.

Pode se afirmar que a realidade do mundo hoje é de velocidade, conectividade, engajamento, de tensões, polaridades e de afinidades por gostos compartilhados. Em muitos casos, tal fato coexiste com uma percepção distorcida por parte das pessoas, que tendem a focar em aspectos negativos e informações sensacionalistas, muitas vezes sem interesse pela verdade factual, conforme documentado em diversas pesquisas.

Incoerentemente, quanto mais acumulo e disponibilidade de tecnologia, quanto mais conectadas as pessoas estão, mais solitárias e vazias se encontram. Nessa perspectiva, conceitos e valores como família, solidariedade, espiritualidade, dedicação, abnegação são deixados em segundo plano e deliberada ou inconscientemente deturpados, numa busca frenética de auto justificação a uma nova postura que já foi adotada ou pretende ser.

Nesse contexto é real a discussão e afirmação de que o homem é um ser social e portanto, não deveria viver isolado, resultado do excessivo uso das novas tecnologias e preso conscientemente ao mundo, alienado das questões do mundo real e condicionado ao isolamento, ambiente e espaço criado por ele mesmo.

É o ambiente global com sus facetas influenciando diretamente a vida das pessoas, desde as condições de saúde, bem-estar ou comportamento como bem afirma a psicologia e Behaviorismo.

Na psicologia, o termo se relaciona com as teorias de aprendizagem do condicionamento clássico (Ivan Pavlov) e condicionamento operante (B.F. Skinner). Ambas as teorias explicam como os comportamentos são moldados por associações entre eventos ambientais e respostas comportamentais, através de estímulos, reforços e punições.

No condicionamento clássico envolve a criação de uma resposta automática a um novo estímulo por meio de associações repetidas. Já o condicionamento operante concentra-se em como as consequências do comportamento (reforço ou punição) aumentam ou diminuem a probabilidade de esse comportamento se repetir. Nesse contexto, o condicionamento ambiental refere-se a como o ambiente, através de suas influências externas, molda o comportamento individual.

Outra interpretação comum refere-se à Teoria Ambientalista criada por Florence Nightingale, pioneira da enfermagem moderna. Sua teoria tinha como foco o meio ambiente, defendendo que todas as condições do entorno (higiene, ventilação, iluminação, temperatura) podem influenciar o processo de saúde, doença e recuperação dos pacientes.

Com o passar dos tempos, este conceito se expandiu para outras áreas, e em síntese, a teoria do condicionamento ambiental pode se referir a como os fatores externos, sejam eles estímulos de aprendizagem ou condições físicas do entorno podem influenciar a vida, o desenvolvimento e o comportamento dos organismos.


Fonte: 

A realidade do mundo de hoje. Edgar Stoever. https://pt.linkedin.com/pulse/realidade-do-mundo-de-hoje-edgar-stoever.

https://www.google.com/search?q=teoria+do+concionamento&rlz=1C1GCEU_pt-BRBR1161BR1183&oq=teoria+do+concionamento&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOdIBCTkxMTNqMGoxNagCCLACAfEFjjwauR4_RRo&sourceid=chrome&ie=UTF-8


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

MEIO AMBIENTE E O SER HUMANO

Quando falamos em meio ambiente, devemos ter ciência de que esse termo pode ter diversos conceitos. A Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo, conceitua o meio ambiente como o conjunto de elementos físicos, químicos, biológicos e sociais que podem causar efeitos diretos ou indiretos sobre os seres vivos e as atividades humanas, ou seja, o identifica de acordo os componentes que fazem parte do mesmo.

Neste sentido, podemos afirmar que o meio ambiente é composto por todo tipo de vegetação, animais, micro-organismos, solo, rochas, água e a atmosfera e as relações e influências que são estabelecidas entre os seus componentes. É somente através da harmonia e do equilíbrio do meio ambiente que a vida é garantida no planeta e podemos desenvolver todas as nossas atividades.

Os estados e seus municípios, localizado na Região Amazônia desfrutam de uma exuberante, diversificada e bela vegetação, além de rios, igarapés, lagos, cacheiras e muitos outros corpos de água. A diversidade de animais e florestas faz com que a região tenha uma das mais bonitas fauna e flora do país e do planeta. 

Nesse cenário amazônico, são desenvolvidas as mais diversas atividades utilizando os diferentes espaços individuais e coletivos, almejando a qualidade de vida no presente e pensando no futuro. Os municípios dessa região, aos poucos vêm deixando de serem apenas exportador de matéria prima e já começa a dar grandes passos para a implantação de grandes indústrias.

Além do turismo e o comercio, o agronegócio em expansão movimenta uma significativa parcela da economia local. São fatores que se de um lado movimenta a economia, por outro trazem consigo a preocupação que todos devem ter com o meio ambiente, pois sendo este, um bem comum, é dever de todos a sua preservação para seja garantida a qualidade de vida. Afinal, ter um meio ambiente equilibrado é um direito garantido na Constituição Federal brasileira.

Em resumo o meio ambiente na região amazônica é caracterizado pela vasta biodiversidade, clima equatorial úmido e a presença do maior sistema fluvial do mundo



sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Recursos hídricos em Rondônia e suas complexidades

Em Rondônia, os principais impactos sobre os recursos hídricos estão relacionados às atividades antrópicas orientadas ao desenvolvimento econômico, como a expansão da fronteira agropecuária, responsável pelo desmatamento dos redutos florestais remanescentes e contaminação do solo e corpos d’águas locais.

A área de abrangência do PERH/RO compreende o território do Estado de Rondônia, com extensão total de aproximadamente 238.000 km2, onde estão inseridos 52 municípios que abrigam uma população de quase 1.790.000 habitantes (IBGE, 2016).

A atividade garimpeira, na região leste do Estado, também é uma fonte de poluição hídrica com o lançamento de metais pesados nos corpos d’água. A ocupação e distribuição populacional também geram impactos significativos sobre os recursos hídricos, principalmente devido à inexistência de redes de esgotamento sanitário nos municípios e, consequentemente, o descarte do esgoto doméstico diretamente em corpos d’água.

Nos estudos de disponibilidade hídrica registra-se a insuficiência de dados e informações quantitativas e qualitativas, mais acentuadamente no caso das águas subterrâneas. A disponibilidade hídrica superficial foi determinada a partir da vazão de referência Q95% (vazão de 95% de permanência), seguindo as diretrizes preconizadas na esfera federal.

A avaliação da qualidade da água superficial mostra condições regionais bastante distintas, considerando os parâmetros disponíveis nas estações de monitoramento de qualidade da água. A estimativa do potencial poluidor proveniente de efluentes domésticos, da pecuária e da agricultura mostrou-se consistente com os resultados proporcionais aos respectivos quantitativos de população humana, animal e área cultivada, mais preocupantes nos maiores centros urbanos e polos agropecuários.

No que tange às águas subterrâneas, o Sistema Aquífero Parecis, ao sul do Estado, apresenta a maior produtividade. Estudos apontam que, em geral, as águas subterrâneas em zonas urbanas de Rondônia possuem indicativos de contaminação provenientes de efluentes urbanos ou agropecuários e comprovam a precariedade das condições sanitárias da água consumida por grande parte da população abastecida por poços.

Sob a ótica do volume de água retirado para atendimento aos diferentes usos consuntivos, destaca-se o abastecimento animal que, a partir dos anos 2000, passou a representar as maiores retiradas de vazões do Estado, atingindo aproximadamente 40% da água consumida, seguido pelo setor de abastecimento humano urbano.

A irrigação, a partir do ano de 2004, passou a apresentar uma tendência contínua de crescimento. A retirada de água para o abastecimento humano rural apresentou decréscimo ao longo da série, motivada pelo êxodo rural. O município do Estado de Rondônia com as maiores retiradas de água para atendimento aos diversos setores usuários do recurso hídrico é Porto Velho.

O diagnóstico sobre as disponibilidades e as demandas hídricas em Rondônia, mostra que, de modo geral, os recursos hídricos do Estado possuem condições quantitativas de atender adequadamente aos setores usuários, a menos de problemas locais de desabastecimento.

Assim, é imprescindível o desencadeamento efetivo de ações de recuperação da qualidade das águas, bem como de maior conhecimento das características locais dos recursos hídricos, para seu aproveitamento otimizado e sustentável. Além disso, é importante destacar que os problemas de desabastecimento localizados deverão ser abordados no âmbito dos Planos de Bacias Hidrográficas.

 Sob a ótica do volume de água retirado pelos diferentes usos consuntivos, destaca-se o abastecimento animal, que a partir dos anos 2000 passou a representar as maiores retiradas de vazões do Estado, aproximadamente 40%, seguido pelo abastecimento humano urbano. A irrigação a partir dos anos 2004 passou a apresentar uma tendência contínua de crescimento.

O abastecimento humano rural apresenta decrescimento ao longo da série histórica. De modo geral, o município com maiores vazões retiradas do Estado de Rondônia no ano de 2016 foi Porto Velho. Em termos de UHGs, destacam-se as do Médio Rio Machado e Margem Esquerda do Rio Jamari.

Do diagnóstico sobre as disponibilidades e demandas hídricas em Rondônia, pode-se dizer que, de modo geral, os recursos hídricos do Estado possuem condições quantitativas de atender adequadamente a grande parte das demandas. Entretanto, é imprescindível o desencadeamento efetivo de ações de recuperação da qualidade das águas, bem como de maior conhecimento das características locais dos recursos hídricos, para seu aproveitamento otimizado e sustentável.

Além disso, é importante destacar que problemas locais de desabastecimento já existem em alguns municípios do Estado, conforme mencionado ao longo do estudo, e devem ser abordados com maior detalhe no âmbito dos Planos de Bacias Hidrográficas.

Para responder às necessidades levantadas relacionadas aos recursos hídricos do Estado, o PERH/RO é composto por 4 grandes Diretrizes Norteadoras:

- Desenvolvimento/ fortalecimento legal-institucional;

- Consolidação e implementação dos instrumentos de gestão de recursos hídricos;

- Desenvolvimento tecnológico, capacitação e comunicação; e

- Conservação da água, solo e ecossistemas.

As diretrizes norteadoras agregam 16 programas e 32 projetos específicos a serem implementados nos diversos municípios do Estado de Rondônia. O Estado de Rondônia não possui os critérios de outorga regulamentados. Para auxiliar a SEDAM, como órgão outorgante, na análise das alternativas dos critérios e procedimentos mais adequados, o PERH/RO, propôs critérios iniciais de outorgas.

No período de execução do PERH/RO nenhum rio de domínio do Estado apresentava proposta de enquadramento consolidada, devendo as águas doces ser consideradas como classe 2, segundo a Resolução CONAMA no 357/2005. O PERH/RO apresenta diretrizes para a elaboração da proposta de enquadramento dos cursos d’água, em conformidade com as legislações estaduais e nacionais vigentes.

Ainda, o PERH/RO buscou fornecer diretrizes gerais e uma estimativa do potencial de arrecadação global a partir da cobrança pelo uso da água nas bacias hidrográficas contidas no Estado de Rondônia.

O valor total estimado foi de aproximadamente R$ 63 milhões. Para os horizontes de 2021, 2026 e 2036, os valores estimados foram respectivamente de R$ 68 milhões, R$ 74 milhões e R$ 88 milhões. Desses montantes, 92,5% retornariam para os CBHs para a aplicação em projetos previstos nos planos de bacias hidrográficas.

Por fi m, é importante destacar que todos os resultados do Diagnóstico e Prognóstico dos recursos hídricos no Estado de Rondônia, bem como das Diretrizes, Programas e Projetos do PERH/RO foram consolidados a partir da participação pública, incorporando informações importantes de usuários de recursos hídricos, gestores municipais, sociedade civil, comunidades tradicionais, técnicos dos órgãos setoriais e demais cidadãos.


Texto do Plano Estadual de Recursos Hídricos do Estado de Rondônia (PERH/RO).

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

INVISIBILIDADE DOS RIBEIRINHOS DA AMAZÔNIA

A região ribeirinha, apresenta desafios significativos impensáveis para moradores das comunidades tradicionais que a habitam histórica e secularmente. Viver nessas áreas é superar o isolamento geográfico, à precariedade de infraestrutura e aos impactos extremos dos ciclos de cheia e seca dos rios.

A população ribeirinha se caracteriza como uma população vulnerável por suas condições de moradia, precariedades sanitárias e distanciamento entre suas moradas, além dos momentos de angústia que enfrentam quando acontecem as enchentes e recentemente, grandes secas, consequência das degradações ambientais, impulsionadas pelo império capitalista.

Isolamento geográfico, limitações tecnológicas, dificuldades de locomoção e acesso as politicas públicas são algumas das principais barreiras enfrentadas por essas populações. No contexto geral, as principais dificuldades incluem:

  • Acesso a Serviços Básicos: O isolamento geográfico, frequentemente exacerbado pelas condições climáticas, dificulta ou impede o acesso a serviços essenciais, ou seja, a população está sempre alienada e carente de politicas públicas em todas as áreas dos direitos que lhes são assegurados constitucionalmente.

    • Saúde: Profissionais de saúde enfrentam grandes desafios logísticos para chegar a essas comunidades, e as unidades de saúde locais são frequentemente precárias ou inexistentes. Na grande maioria carente de profissionais que possa atender a população no lugar onde moram.

    • Educação: Estudantes enfrentam dificuldades diárias, com a falta de escolas adequadas e a necessidade de longos deslocamentos, geralmente de barco, para estudar em outras localidades. Com a nucleação escolar na região, a partir da década de 1990, as escolas existentes em pequenas comunidades foram desativadas aumentando o número de desistências e retenções de alunos, consequência dos longos percursos até as escolas-nucleos.

    • Saneamento Básico: A maioria das comunidades não possui acesso a esgoto tratado ou coleta regular de lixo, o que impacta diretamente a saúde local.

  • Impactos das Variações Climáticas: As comunidades ribeirinhas são altamente vulneráveis a eventos climáticos extremos, como secas severas e grandes inundações, fatores que tem se gravado nos últimos anos.

    • Secas: Causam a falta de água potável, dificuldade no transporte (barcos encalham em bancos de areia), escassez de alimentos e suprimentos, e a necessidade de deslocamentos constantes para cidades próximas.

Inundações: Resultam na invasão de casas pela água, perda de móveis e veículos, risco de doenças (dengue, verminoses, doenças de pele) e acidentes, além de aglomeração em áreas secas remanescentes.

  • Logística e Transporte: A dependência de rios como principal via de transporte torna a logística de suprimentos e o deslocamento de pessoas demorados e difíceis, especialmente durante a seca ou cheia, quando a navegabilidade é comprometida.

  • Vulnerabilidade Social: As comunidades são caracterizadas por condições de moradia vulneráveis e a falta de incentivos econômicos para práticas sustentáveis, muitas vezes dependendo de atividades de subsistência como pesca e agricultura.


terça-feira, 21 de outubro de 2025

HIDROVIA DO RIO MADEIRA - VETOR DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

Atualmente, a hidrovia do Rio Madeira, é a segunda via mais importante para o transporte de cargas e escoamento de produtos na Amazônia, ficando atrás somente do rio Amazonas. Além dessa função comercial, por ela trafegam também moradores de comunidades tradicionais que residem ao longo do rio, desenvolvem suas atividades e possuem intrínseca relação de sustentabilidade para com o rio

Com legislação específica o transporte hidroviário constitui um dos conceitos de mobilidade urbana, mas subutilizado no Brasil. Neste sentido, a Hidrovia do Rio Madeira é um vetor de desenvolvimento sustentável porque é um modal de transporte com menor impacto ambiental que o rodoviário e ferroviário.

No entanto, é um modal com grande potencial econômico que carece de otimizar a logística, garantir a navegabilidade durante todo o ano e promover o desenvolvimento econômico local através de melhorias na infraestrutura, como dragagem e sinalização, e a criação de empregos. Além disso, inclui programas ambientais e busca fortalecer as comunidades ribeirinhas, preservando o meio ambiente e mitigando mudanças climáticas.

A bacia do Rio Madeira, tem origem na cordilheira dos andes e é formada por rios andinos e brasileiros, representa 23% do total da bacia Amazônica e se estende por Bolívia (51%), Brasil (42%) e Peru (7%), sua área total de drenagem é de 1.324.727 km² representando a maior sub-bacia Amazônica (GUYOT, 1993)

Apesar de o Brasil possuir grande extensão em hidrovias, esse modo ainda é pouco utilizado. No agronegócio, por exemplo, apesar de identificado como mais competitivo e sustentável, tem participação inferior a 5% (BALLAN, 2011). Dentre as hidrovias, as utilizadas para grãos e farelo são: Tietê-Paraná com destino ao porto de Santos/SP, e a hidrovia do Madeira, que opera no rio Madeira e tem início em Porto Velho/RO, e finaliza em Itacoatiara/AM.

Ainda de acordo com ALBERTI (2016), a bacia do Rio Madeira possui extensão de 1.086 quilômetros entre Porto Velho e a foz, em Itacoatiara/AM, permitindo a navegação de grandes comboios, com até 18 mil toneladas, mesmo durante a estiagem. A largura varia entre 440 metros e 9.900 metros. Segundo a ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), a profundidade oscila de acordo com as estações seca e chuvosa, e pode ir de 2 metros a 17 metros.

Desenvolvimento sustentável que as hidrovias podem promover quando bem estruturadas:

    1. Transporte ecológico:

    O transporte hidroviário emite de 4 a 5 vezes menos poluentes que o rodoviário e 1,5 vezes menos que o ferroviário, o que a torna uma opção mais sustentável.

    2. Segurança e eficiência logística:

    A concessão inclui serviços de dragagem, balizamento e sinalização para garantir a segurança e a confiabilidade da navegação, permitindo que embarcações operem 24 horas por dia e com maior capacidade. Isso melhora a eficiência no escoamento de cargas, como grãos, e no abastecimento de combustíveis.

    3. Desenvolvimento econômico e social:

    A melhoria da infraestrutura da hidrovia gera empregos e renda na região.

    4. Proteção do meio ambiente:

    Promoção de projetos de responsabilidade ambiental e a conservação de recursos naturais, além de contribuir para a preservação do meio ambiente e a mitigação das mudanças climáticas.

    5. Conexão com a Amazônia:

    A hidrovia conecta a produção agrícola do Centro-Oeste e Norte do Brasil aos portos amazônicos, facilitando a exportação de mercadorias e o transporte de passageiros, e integrando as comunidades ribeirinhas às cadeias produtivas.


 

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

O ensino da geografia e as novas tecnologias

A melhor maneira de aprender é aquela aonde a cada passo vão sendo elaborados os conhecimentos necessários para garantir as ações no ambiente local. São essas ações que auxiliarão na melhoria da qualidade de vida na sociedade. É sabido que as estruturas do pensamento, do julgamento e da argumentação resultam de uma construção realizada por aquele que aprende, seja a criança ou jovem, em longas etapas de reflexão e de interação.

Na sociedade globalizada se torna cada vez mais necessário partilhar os novos saberes com o maior número de pessoas possíveis, envolto em discussões conscientes que traduzam a singularidade das pessoas envolvidas, e repercutam para toda a comunidade em melhores condições do ambiente em que vivem, onde cada um possa fazer a sua parte.

Em nossa sociedade, a escola pública, em todos os níveis e modalidades da Educação Básica, tem como função social formar o cidadão, isto é, construir conhecimentos, atitudes e valores que tornem o estudante solidário, crítico, ético e participativo. Para isso, é indispensável socializar o saber sistematizado, historicamente acumulado, como patrimônio universal da humanidade, fazendo com que esse saber seja criticamente apropriado pelos estudantes, que já trazem consigo o saber popular, o saber da comunidade em que vivem e atuam.

A interligação e a apropriação desses saberes pelos estudantes e pela comunidade local representam, certamente, um elemento decisivo para o processo de democratização da própria sociedade. A escola pública poderá, dessa forma, não apenas contribuir significativamente para a democratização da sociedade, como também ser um lugar privilegiado para o exercício de uma cidadania consciente e comprometido com os interesses da maioria socialmente excluída ou dos grupos sociais privados dos bens culturais e materiais, produzidos pelo trabalho dessa mesma maioria.

É preciso formar cidadãos conscientes dos processos educacionais envolto às novas tecnologias chamando a atenção para o estabelecimento de uma relação entre aprender o conhecimento sistematizado com as questões da vida real e a possibilidade de transformação da realidade local onde vivem em sintonia com a global.

As ferramentas tecnológicas estão sendo inseridas a todo instante na escola, e consequentemente, em nossas vidas, modificando o modo de viver e o agir docente a partir do vislumbramento de novas técnicas. O fenômeno técnico tem caráter exossomático inerente à condição humana de reproduzir as próteses que potencializarão o seu corpo e moldar o ambiente, como afirma Milton Santos:

A principal forma de relação entre o homem e natureza, ou melhor, entre o homem e o meio é dada pela técnica. As técnicas são um conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço. (SANTOS, 1999, p. 25)”.

Neste sentido, podemos afirmar que técnica não é o mesmo que tecnologia. Pois, é preciso ressaltar que a diferença entre técnica e tecnologia é a mesma diferença que há entre inovação e invenção. A invenção é produto de uma dada técnica humana com vistas em resolver um problema que é econômico e social. Mas, nem sempre uma nova invenção se difunde no tecido social e isso a deixa restrita ao conceito de invenção.

Agora quando este novo produto técnico tem a capacidade de se difundir no tecido social e se torna aceito pela sociedade que lhe dá um uso, cria interconexão entre as pessoas e setor produtivo passa a ser chamado de inovação. A inovação é nada mais do que, uma invenção com valor social sistêmico, sendo assim chamado de tecnologia.

A técnica tem o poder de criar outros objetos, mas somente quando estes ganham poder sistêmico de se unir com outros objetos gerando novas ações é que eles se tornam tecnológicos. Nos tempos atuais é notável o acelerado avanço tecnológico que o processo de globalização permite e exige. Tais avanços, ao mesmo tempo, que possibilita inovação para uns educadores, para outros cria um novo problema que precisa de urgente solução, de forma a permitir-lhe também acompanhar tal processo e utilizá-lo a seu favor no dia a dia.

É a necessidade de um novo olhar sobre a realidade e a compreensão dos processos sobre a construção de outra relação do homem com o meio natural, social e tecnológico. Atualmente temos acompanhado grandes debates em torno do uso das novas tecnologias como ferramenta pedagógica nas escolas. Autores renomados e revistas especializadas em educação sempre trazem essas discussões chegando a afirmar que “hoje os professores sabem que os computadores possibilitam a criação de um ambiente de aprendizagem” (NOVA ESCOLA, 2003, p. 11).

Por outro lado há os que argumentam sobre a perplexidade do professor perante tal instrumento, misturando uma sensação de admiração, surpresa, critica e cepticismo. Acrescenta-se a estas reações a frustração, a inferioridade e a resistência em usar instrumentos tecnológicos na sala de aula, reafirmadas pela “ideia de que qualquer criança lida melhor com esses instrumentos do que os adultos” (CARNEIRO, 2002, p. 57).

A geografia é uma disciplina que exige cada vez mais a atualização dos professores e a interatividade destes com os discentes. Tem se notado no Brasil, a preocupação em dotar as escolas de equipamentos tecnológicos (computador, data show, internet, DVD, televisão, entre outros), que permitam o dinamismo e o envolvimento de professores e alunos nos conteúdos trabalhados em sala de aula e consequentemente melhorar o aprendizado em todas as áreas do conhecimento.

Acredita-se que tais aparatos tecnológicos a serviço da educação, quando bem utilizados nas aulas de geografia poderão ampliar e desenvolver os saberes nesta área de conhecimento e incentivar o diálogo entre alunos, professores e a sociedade, e consequentemente obter resultados significativos no processo de ensino e aprendizagem. No entanto, é preciso que os professores se movam com clareza no desenvolvimento de suas práticas, tornando-os mais seguro do seu próprio desempenho (FREIRE, 2004, p. 68).

Diante da infinidade de discursos sobre o uso das novas tecnologias na sala de aula é necessário, particularmente no ensino da geografia, verificar a real situação da forma como os recursos tecnológicos existente nas escolas públicas são utilizados, bem como a capacidade de operacionalização desses recursos pelos professores, com perspectivas ao desvencilhar de propostas pedagógicas, que visem uma prática de ensino mais interativa e dinâmica e construtiva na sala.


 

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

DISTRITO DE NAZARÉ, NA AMAZÔNIA E SUAS POTENCIALIDES CULTURAIS

O distrito de Nazaré, localizado no Baixo Madeira, em Porto Velho (RO), região da Amazônia brasileira, possui uma rica e fértil potencialidade cultural ribeirinha e amazônica, sendo considerado um dos principais polo de resistência cultural na região. A comunidade preserva tradições ancestrais, sendo uma das poucas comunidades que possui manifestações culturais reconhecidas como patrimônio do estado.

Apenas para que se faça o devido reconhecimento que aquela população merece, depois de muito tempo de um racismo cultural que estava impregnado, e que causou certamente muitos prejuízos a sua história e dos grandes personagem que lutaram pelo avivamento das tradições locais que foram trazidas por seus antepassados, podemos citar algumas dessas potencialidades culturais:

  • Festival Cultural de Nazaré: É a manifestação cultural ribeirinha mais importante da capital de Rondônia, com mais de 50 anos de tradição. O festival, que já foi reconhecido como Patrimônio Cultural de Rondônia, é realizado pela própria comunidade para proteger e promover sua identidade local. O evento anual atrai visitantes de diversas partes do Brasil e do mundo, oferecendo uma imersão na cultura local.

    O festival Cultural, assim a própria vida cotidiana do povo envolvem diversas expressões e manifestações artísticas, como:

    • Música e Dança: Apresentações de grupos musicais locais (como o grupo "Minhas Raízes"), danças típicas, quadrilhas juninas e a entrada do boi-bumbá Curumim, um dos momentos mais esperados do festival.

    • Teatro e Lendas: A comunidade valoriza a contação de histórias, incluindo as lendas da Amazônia e a história dos seringueiros, entre outras contadas pelos mais antigos que ficaram na memória dos que la vivem nos dias atuais, que são encenadas e narradas.

    • Artesanato: O trabalho artesanal é fundamental, especialmente na confecção detalhada dos figurinos para as apresentações culturais, que dão cor e vida ao espetáculo.

  • Culinária Regional e Extrativismo: A cultura gastronômica é um ponto forte, com a comercialização de comidas típicas regionais, como o vinho de açaí produzido localmente. A economia local baseia-se no extrativismo e na agricultura de subsistência, o que também faz parte da identidade cultural da comunidade.

  • Identidade Ribeirinha e Ancestralidade: A cultura de Nazaré é profundamente enraizada na vida à beira do rio Madeira, valorizando a relação com a natureza, a fauna e a flora local. Atualmente há um esforço contínuo para resgatar o sentimento de pertencimento e garantir que as histórias e origens não sejam esquecidas pelas novas gerações.

    Entre todos os contextos, podemos afirmar que a potencialidade cultural de Nazaré reside na sua capacidade de preservar e celebrar um modo de vida tradicional e autêntico da Amazônia, que sempre foi esquecido e nunca alcançado pelas politicas públicas que buscam privilegiar as áreas urbanas ou que tenha algum poder politico envolvido.

    É preciso reconhecer que o povo ribeirinho tem sua própria cultura respeitar e valorizar. O que acontece hoje em Nazaré, essa pequena comunidade localizada na área ribeirinha do Município de Porto Velho-RO, deve ao esforço do seu próprio povo, que de tanto clamar apoio das autoridades e não serem atendidos, resolveram com seus próprios esforços difundir seu trabalho, suas lutas e seus conhecimentos.


O que é racismo ambiental?

O racismo ambiental é um fenômeno que designa a alocação desproporcional de riscos e impactos ambientais negativos (como poluição, lixões, indústrias poluentes) em comunidades de baixa renda e, especialmente, em populações tradicionais e outras minorias étnicas. Essa realidade se manifesta de diversas formas, desde a proximidade de favelas com áreas de descarte de resíduos até a falta de acesso a saneamento básico e áreas verdes em bairros periféricos.

O termo surge no território norte americano, a partir de estudos sobre justiça ambiental, com participação efetiva do movimento negro estadunidense que por seguinte, se tonou um programa de ação do governo federal dos Estados Unidos (HERCULANO, 2006).

No Brasil o termo chegou a partir da influência das manifestações internacionais pela justiça ambiental, através do viés acadêmico. Após a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente- ECO 92, em 2002 surge a Rede Brasileira de Justiça Ambiental (MATHIAS, 2017).

A inclusão ativa das populações mais vulneráveis aos efeitos da crise ambiental em todas as etapas dos debates é imprescindível na promoção e implementação de medidas e estratégias de adaptação aos novos desafios ambientais, respeitando os princípios de democratização dos processos decisórios e promovendo a participação e a redistribuição do controle socioeconômico é necessário e emergente.

A Amazônia é um território de grande importância ecológica, econômica e cultural, lar de diversas comunidades tradicionais que desempenham um papel crucial na conservação da floresta e na manutenção do equilíbrio ambiental.

No entanto, essas comunidades são frequentemente vítimas do racismo ambiental, que se manifesta na distribuição desigual dos riscos e danos ambientais, exacerbados pelas mudanças climáticas severas que tem ocorrido nos últimos anos.

Nesse contexto é premente o estudo sobre a importância da educação e ações culturais e suas relações no combate ao racismo ambiental e seus impactos nas comunidades tradicionais ribeirinhas da Amazônia, uma maneira de investigar como a desigualdade social intersecta com os impactos da discriminação ambiental que emerge nessas comunidades, resultando em vulnerabilidades específicas e injustiças ambientais.

Da mesma forma, é preciso entender como a exploração de recursos, o desmatamento e as mudanças no uso da terra afetam desproporcionalmente essas populações tradicionais, trazendo à tona as raízes históricas e estruturais do racismo ambiental nessa região tanto difundida no planeta, no entanto carente de políticas públicas voltadas a melhoria da qualidade de vida das populações que nela vivem.

Faz-se mostrar como a educação pode ser um espaço de conscientização, empoderamento e ação para que comunidades, especialmente as mais atingidas, como as ribeirinhas da Amazônia, possam lutar por seus direitos e por ambientes mais justos e saudáveis, desvelando o tema e seus impactos e gerando conhecimentos essenciais para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

RACISMO AMBIENTAL NAS COMUNIDADES TRADICIONAIS RIBEIRINHAS DA AMAZÔNIA

A atualidade mostra que a sociedade enfrenta um período de crise que desencadeia impactos no âmbito social, ambiental e econômico. Os grupos em vulnerabilidade social e econômica são os mais impactados, reforçando a necessidade de ações públicas que promovam o equilíbrio ambiental, sem qualquer tipo de distinção.

O racismo, por ser estrutural, se manifesta em todas as dimensões da vida em sociedade: na Educação, Saúde, Cultura, nas legislações e, também, no meio ambiente. O racismo ambiental, conceito que surge nos anos 80 com o líder de direitos civis Benjamin Chavis, no contexto de manifestações do movimento negro contra injustiças ambientais nos Estados Unidos da América é, portanto, outra frente a ser considerada nos ambientes de formação formal e informal.

A vulnerabilidade socioambiental não é um fenômeno que atinge a todos os povos de maneira igualitária. Não seria justo afirmarmos que todas as comunidades humanas sofrem dos desequilíbrios do meio ambiente de maneira igualmente proporcional, pois antes de qualquer questão que seja exclusivamente de ordem ambiental, existe uma, desigualdade social que afeta, de modo mais severo, as comunidades periféricas e tradicionais no exercício de acesso aos direitos ambientais. Visando o cenário desta afirmação, é possível se concluir que:

"Se há diferença nos graus de exposição das populações aos males ambientais, isso não decorre de nenhuma condição natural, determinação geográfica ou causalidade histórica, mas de processos sociais e políticos que distribuem de forma desigual a proteção ambiental (ACSELRAD; MELLO, 2009, p.73)."

A relação entre a educação e o racismo ambiental é uma faceta crítica da emergência global. Práticas insustentáveis e emissões excessivas exacerbam as vulnerabilidades de povos e comunidades já marginalizadas, aprofundando as disparidades existentes. Os impactos da emergência/crise ambiental, como são chamados os eventos que produzem seca, chuvas, temporais entre outros dessa natureza, atingem a sociedade brasileira de forma desproporcional.

Junto as populações tradicionais ribeirinhas da Amazônia, isso se manifesta de maneira aguda, enquanto o desmatamento, os incêndios e o garimpo ilegal impulsionam as mudanças climáticas, os efeitos resultantes como alterações no regime de chuvas impactam desproporcionalmente a região, comprometendo ainda mais sua capacidade de subsistência e resiliência.

Segundo Robert Bullard (2002), o racismo ambiental decorre da degradação ambiental imposta pela lógica mercadológica e capitalista de exploração e se refere a políticas, práticas ou diretrizes ambientais que afetam diferentemente ou de forma desvantajosa (seja intencionalmente ou não) indivíduos, grupos ou comunidades mais vulneráveis, seja por questões de renda, educação, cor, gênero ou raça, podendo ser reforçadas por instituições governamentais, jurídicas, econômicas, políticas e militares.

O racismo ambiental é, portanto, uma forma de discriminação ambiental. Ele acontece quando as políticas ambientais e os projetos de desenvolvimento são inexistentes ou implementados de forma a prejudicar deliberadamente as populações mais vulneráveis que são afetadas de forma desproporcional pelos impactos ambientais negativos, como a poluição do ar, a contaminação da água, as enchentes, as secas, os desmatamentos, intoxicação e etc.

Isso acontece porque essas populações muitas vezes têm menos poder político e econômico para evitar ou remediar esses impactos. Além disso, a falta de acesso a serviços básicos, como água potável e saneamento, agrava ainda mais os impactos negativos do racismo ambiental. O resultado é uma qualidade de vida muito inferior à das pessoas que vivem em áreas mais ricas e protegidas, afetando a saúde e bem-estar dos moradores.
As comunidades tradicionais ribeirinhas da Amazônia são exemplos claros de racismo ambiental. Apesar de serem áreas de grande valor ecológico, cultural e econômico e terem um conhecimento profundo desses ecossistemas, têm pouca influência sobre as políticas que afetam seus territórios e geralmente são excluídas do processo de tomada de decisão dos governantes publicos.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

ESCOLA RIBEIRINHA NA AMAZÔNIA: PARA ALÉM DO DISCURSO

O Município de Porto Velho/RO tem como principal bacia hidrográfica o Rio Madeira, que de acordo com o Plano Diretor da cidade é formada por três regiões: Alto, Médio e Baixo Madeira. Nessas regiões estão distribuídos quatorze distritos. Abrange uma área de aproximadamente 34 km² e mais de 500 km de extensão Leste-Oeste, quase 15% do território do estado de Rondônia.

A região é constituída por uma variedade de ecossistemas e uma diversidade de povos com saberes, habilidades, costumes e valores próprios que torna a região um espaço inter/multicultural, cuja diversidade cultural, social e étnica sustenta sua riqueza sócia histórica.

A escola existente nesses territórios possui extrema importância para a reprodução social dessas populações (FABRÉ, et al, 2007). Apesar da peculiaridade e riqueza das localidades, marcada pela subida e descida das águas, a política de educação escolar tem sido predominantemente pautada no modelo urbano-cêntrico reproduzindo fortemente a desvalorização do modo de vida, reforçando o êxodo rural e consequentemente a falta de desenvolvimento econômico da região.

Essa desvalorização, marcada pela pouca atuação do Estado, tem proporcionado um considerável índice de jovens e adultos não alfabetizados e de pessoas com tempo de escolaridade inferior a quatro anos. Possui um baixo IDH e índices do IDEB nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Esses baixos indicadores sociais e humanos refletem o peso do tratamento subalterno que a população ribeirinha historicamente tem recebido.

Pensar o espaço de uma comunidade ribeirinha na Amazônia significa superar algumas visões estereotipadas acerca dos significados do que é viver essa múltipla identidade, marcada por diversos aspectos, que vão desde a relação imbricada com a natureza à construção diária da vida nas práticas do cotidiano.

A população ribeirinha vive dinâmica própria condicionada no tempo e no espaço em que estão situados, possuindo condições para viver sem grandes problemas, mas o que lhes faltam é melhores condições de acesso às políticas públicas. Nesse sentido, convém destacar a Constituição Federativa do Brasil de 1988 (BRASIL, 1988), ao dizer no Artigo 205 que: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

A falta, ou a quase inexistência, de atenção governamental é amplamente perceptível nessas regiões evidenciada na carência de atenção para um dos principais alicerces da formação dos cidadãos, a escola. Com efeito, a escola ribeirinha da Amazônia passa por problemas ainda mais recorrentes devido às dificuldades de acesso, uma vez que estão localizadas às margens dos rios, em locais de difícil acesso.

Ademais, a falta de planejamento educacional nessas áreas em conformidade com os anseios da população evidencia a imposição de uma estrutura social, na qual os padrões educacionais, culturais, didáticos e institucionais urbanos são transpostos, em muitos casos negando a identidade dos povos tradicionais locais.

Nesse sentido, as potencialidades próprias são essencialmente tidas como inexploradas pelos estudantes, cujas relações de ensino e de aprendizagem ocorrem como reflexo das relações educacionais vivenciadas nas escolas urbanas. O currículo das escolas nessa região necessita contemplar elementos de compreensão da realidade por elas vividos de forma especializada.

Trata-se de uma escola que tem suas diferenças, suas características, suas marcas, e que precisa ser respeitada enquanto instituição que abriga outro modo de viver as relações pedagógicas do currículo, e sendo assim, precisa voltar-se para suas necessidades cotidianas (VICTÓRIA, 2008).

São milhares de crianças e jovens que têm suas vidas inseridas num modo peculiar de viver, trabalhar e estudar. Um modo de vida marcado por uma cultura diferenciada, caracterizada principalmente pelo contato com as águas, de onde retiram o sustento para eles e suas famílias.

Muitas destas crianças já começam a lidar com a pesca e a agricultura desde muito cedo, ajudando seus pais e com entusiasmo, participam do sustento diário de suas famílias (CHAVES, 1990). Neste contexto, a escola seria o lugar ideal para o incentivo ao protagonismo do avivamento do conhecimentos historicamente repassados de geração em geração.

Diante disso, é salutar refletir de forma especializada e pensar um currículo para as escolas ribeirinhas de forma que contemple elementos de compreensão da realidade das pessoas que nela buscam ampliar seus horizontes de conhecimentos para o desenvolvimento e a permanência no espaço por elas vivido.

Acredita-se que é possível por em prática um currículo escolar a partir dos ribeirinhos e para os ribeirinhos, no qual se estabeleça relações na tríade práticas pedagógicas, contexto sociocultural e currículo escolar (BRITO, 2008).

Ribeirinhos é uma denominação geralmente usada para caracterizar os pequenos produtores que têm nas terras de várzea o seu espaço social organizado. Diferencia-se do pequeno produtor da terra firme, não só por ocupar um espaço físico diferente, mas também por sua relação com a terra (CHAVES, 1990) e com a água.

A partir do Decreto nº 6.040, de 7/02/2007, as comunidades tradicionais foram entendidas como grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais. Possuem formas próprias de organização social, ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando ainda conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição e não apenas meros transmissores dos modos de vida na beira do rio.

Frente a esses paradigmas a educação nas comunidades ribeirinhas precisa ser profundamente repensada. O modelo de educação utilizado nas áreas urbanas apresenta problemas graves e, quando transportado para o mundo ribeirinho, a situação adquire contornos trágicos.

Para Santomé (1998), o mundo rural e ribeirinho costuma ser silenciado nas intenções e ações pedagógicas. Então, há necessidade de rever velhos conceitos, persistentes paradigmas e antigas atuações pedagógicas e anunciar novas formas de atuação nesses espaços concretos e ricos de experiências, conhecimentos e possibilidades.

Nesse sentido, as conquistas da educação escolar nessas comunidades, inspirada nos princípios da Constituição Federativa do Brasil de 1988 (BRASIL, 1988) e da Lei nº 9394/96, voltada para a construção de uma nova filosofia de desenvolvimento local e regional poderá possibilitar um horizonte educacional de grande valia para inspirar os gestores a refletirem sobre novas possibilidades de pensar o currículo escolar além do rotineiro processo educacional vivido na maioria das realidades educacionais de nosso país.

Faz-se necessário repensar as praticas e os conceitos pedagógicos voltados às escolas implantadas nas comunidades ribeirinhas da Amazônia evidenciando-as como um espaço para a difusão de valores e conhecimentos para o desenvolvimento econômico, social e cultural dos grupos humanos que ali habitam.

Para isso, os saberes tradicionais, as crenças, a cultura das populações ribeirinhas precisa ser considerada nas discussões de um projeto de escola que se caracteriza por ser diferenciada em seus aspectos sociopolítico, cultural e pedagógico. Ou seja, a implementação de uma política educacional que possibilite através dos currículos escolares o protagonismo dos homens e mulheres que residem e trabalham nesses espaços geográficos de assumirem a condição de seu próprio projeto educativo.

Deverá também proporcionar a integração das populações quanto à formatação dos currículos escolares voltadas as suas necessidades, as metodologias de ensino que devem ser voltadas para essas regiões, e consequentemente sua interação com os sistemas de produção local, tendo em vista que a forte presença abusiva das denominadas culturas hegemônica nas práticas escolares tem silenciado as vozes dos grupos minoritários e/ou marginalizados por não disporem de estruturas importantes de poder.

Ademais, é necessário propiciar discussões sobre a implementação da política educacional desencadeada pela nova Base Nacional Comum Curricular, trazendo consigo a possibilidade efetiva dos homens e mulheres que residem e trabalham nos espaços rurais protagonizarem, na condição de sujeitos, a sua própria história, trazendo consigo elementos para reflexão na construção de um projeto de escola rural/ribeirinha que possa impactar diretamente no calendário e no tempo escolar, conforme a lei estabelece, e de acordo com as peculiaridades da região evidenciando novas discussões quanto às possibilidades de interrelação curricular com as escolas da área urbana.